sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A água que seguro nas minhas gastas mãos, tão límpida e, nestas ultimas marcas passadas pelos ponteiros, vívida, escorre sem reparo pelas falhas deixadas pela imperfeita união das minhas palmas e dedos. Escapa-me também, misturada na deslumbrante solução incolor, a mais bela do género que eu alguma vez tive o prazer de conhecer, a habilidade de a cativar a ficar por perto, de lhe dar vontade de ficar no desconforto das minhas mágoas e alegrias e de a fazer verdadeiramente satisfeita.
Suponho então que talvez fosse de maior mérito e valor que eu abra as mãos e te deixe cair neste perfeito rio da vida, que tu tanto contemplas com desejo e admiração. O rio representa, com toda a certeza, o fim da tua presente angústia e o início da tua futura desilusão. Mas esta última parte tu não sabes, e tens o direito de a descobrir por ti própria.
Seja como for, peço perdão, pois as minhas mãos não abrem, estão presas pela promessa que me fiz. Parece que prefiro ver-te escorrer a simplesmente deixar-te ir, num triste e instantâneo movimento.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tão partida como perfeita, brilhas no meu quarto como uma estrela cor-de-feno, quarto onde as luzes não acendem, pois as lâmpadas estão fundidas, onde os olhares são surdos e onde infelizmente ninguém lhe sabe devolver iluminação. Sinto-me bem por conseguir finalmente ver as paredes, que coitadas, ainda choram quando me vêem, o tecto, que tão rachado que está que a sua queda adivinha-se para breve e os retratos, tão limpos e sem expressão, que ainda me olham como eu me lembrava.
De certa forma, não é assim tão mau que não queiras ficar cá dentro. Lembrei-me que prefiro não saber que as paredes choram, que os retratos me julgam e que o tecto não tarda em esmagar-me. Lembrei-me que, se ficares, corres o risco de partilhar o meu fado. Mas, um tanto egoísta, preferia que me desses a mão e que a tragédia nos chegasse ao mesmo tempo, que caíssemos juntos e que juntos nos levantássemos, minha estrela cor-de-feno.