quinta-feira, 31 de maio de 2012


 Daniela, o céu caiu. O teu amor, outrora tão quente e vívido, está agora a esvair-se pelas falhas da minha tela. Pintei este quadro bem demais para ser meu. O artista esmerou-se nalgo que tem que ser consistente e genuíno em vez de instantâneo e ardente, e, quando lhe foi pedida outra nova obra-de-arte, o coitado não soube corresponder, cedeu sob a perfeição do seu próprio génio e caiu nas ruinas do que já foi o seu mundo, agora repleto de paredes chamuscadas e calçadas em tons de cinza, despido de toda a felicidade que alguma vez sentiu. Eu sei que consigo voltar a pintar quadros destes, mas não pode ser com esta tinta, tão pesada e cheia de chumbo e euforia, nem com este pincel, tão seco que rasga a folha como o arame que me rasga a pele todos os dias. As intenções eram puras, os sentimentos também. Mas pedi-me a mim próprio uma obra tão grandiosa que corrompi a minha própria essência e fechei-me num turbilhão de medo e ansiedade. Medo de que as minhas pinturas normais não chegassem para ti, como não chegaram por tanto tempo, medo de que alguém pintasse para ti melhor que eu, medo de não ser para ti o que és para mim. O medo, o medo…

 Daniela, o céu caiu…
 …Mas nós levantamo-lo.