quinta-feira, 31 de maio de 2012


 Daniela, o céu caiu. O teu amor, outrora tão quente e vívido, está agora a esvair-se pelas falhas da minha tela. Pintei este quadro bem demais para ser meu. O artista esmerou-se nalgo que tem que ser consistente e genuíno em vez de instantâneo e ardente, e, quando lhe foi pedida outra nova obra-de-arte, o coitado não soube corresponder, cedeu sob a perfeição do seu próprio génio e caiu nas ruinas do que já foi o seu mundo, agora repleto de paredes chamuscadas e calçadas em tons de cinza, despido de toda a felicidade que alguma vez sentiu. Eu sei que consigo voltar a pintar quadros destes, mas não pode ser com esta tinta, tão pesada e cheia de chumbo e euforia, nem com este pincel, tão seco que rasga a folha como o arame que me rasga a pele todos os dias. As intenções eram puras, os sentimentos também. Mas pedi-me a mim próprio uma obra tão grandiosa que corrompi a minha própria essência e fechei-me num turbilhão de medo e ansiedade. Medo de que as minhas pinturas normais não chegassem para ti, como não chegaram por tanto tempo, medo de que alguém pintasse para ti melhor que eu, medo de não ser para ti o que és para mim. O medo, o medo…

 Daniela, o céu caiu…
 …Mas nós levantamo-lo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Os meus olhos já nem fecham, com medo de te deixar de ver. O peito aperta e o coração bate ansioso pelo relógio. E eu sinto-me incapaz por não conseguir sequer mostrar-te que o meu porto é seguro, que por aqui as águas são calmas e que vai correr tudo bem. Eu não sei se vai correr tudo bem, nem sei sequer se o mar continua turbulento ou não. Sei que, em tempestade, terás sempre a minha mão. Não sei se isso chega, já não sei nada. Todas as promessas que te possa fazer são fúteis, não é isso que interessa. Eu sei do que precisas, só não deixes que o medo ganhe. Os meus olhos, ainda se inundam, ás vezes, com medo de te deixar de ver.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A água que seguro nas minhas gastas mãos, tão límpida e, nestas ultimas marcas passadas pelos ponteiros, vívida, escorre sem reparo pelas falhas deixadas pela imperfeita união das minhas palmas e dedos. Escapa-me também, misturada na deslumbrante solução incolor, a mais bela do género que eu alguma vez tive o prazer de conhecer, a habilidade de a cativar a ficar por perto, de lhe dar vontade de ficar no desconforto das minhas mágoas e alegrias e de a fazer verdadeiramente satisfeita.
Suponho então que talvez fosse de maior mérito e valor que eu abra as mãos e te deixe cair neste perfeito rio da vida, que tu tanto contemplas com desejo e admiração. O rio representa, com toda a certeza, o fim da tua presente angústia e o início da tua futura desilusão. Mas esta última parte tu não sabes, e tens o direito de a descobrir por ti própria.
Seja como for, peço perdão, pois as minhas mãos não abrem, estão presas pela promessa que me fiz. Parece que prefiro ver-te escorrer a simplesmente deixar-te ir, num triste e instantâneo movimento.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tão partida como perfeita, brilhas no meu quarto como uma estrela cor-de-feno, quarto onde as luzes não acendem, pois as lâmpadas estão fundidas, onde os olhares são surdos e onde infelizmente ninguém lhe sabe devolver iluminação. Sinto-me bem por conseguir finalmente ver as paredes, que coitadas, ainda choram quando me vêem, o tecto, que tão rachado que está que a sua queda adivinha-se para breve e os retratos, tão limpos e sem expressão, que ainda me olham como eu me lembrava.
De certa forma, não é assim tão mau que não queiras ficar cá dentro. Lembrei-me que prefiro não saber que as paredes choram, que os retratos me julgam e que o tecto não tarda em esmagar-me. Lembrei-me que, se ficares, corres o risco de partilhar o meu fado. Mas, um tanto egoísta, preferia que me desses a mão e que a tragédia nos chegasse ao mesmo tempo, que caíssemos juntos e que juntos nos levantássemos, minha estrela cor-de-feno.