Daniela, o céu caiu. O teu amor, outrora tão quente e
vívido, está agora a esvair-se pelas falhas da minha tela. Pintei este quadro
bem demais para ser meu. O artista esmerou-se nalgo que tem que ser consistente
e genuíno em vez de instantâneo e ardente, e, quando lhe foi pedida outra nova
obra-de-arte, o coitado não soube corresponder, cedeu sob a perfeição do seu
próprio génio e caiu nas ruinas do que já foi o seu mundo, agora repleto de
paredes chamuscadas e calçadas em tons de cinza, despido de toda a felicidade
que alguma vez sentiu. Eu sei que consigo voltar a pintar quadros destes, mas
não pode ser com esta tinta, tão pesada e cheia de chumbo e euforia, nem com
este pincel, tão seco que rasga a folha como o arame que me rasga a pele todos
os dias. As intenções eram puras, os sentimentos também. Mas pedi-me a mim
próprio uma obra tão grandiosa que corrompi a minha própria essência e
fechei-me num turbilhão de medo e ansiedade. Medo de que as minhas pinturas
normais não chegassem para ti, como não chegaram por tanto tempo, medo de que
alguém pintasse para ti melhor que eu, medo de não ser para ti o que és para
mim. O medo, o medo…
Daniela, o céu
caiu…
…Mas nós
levantamo-lo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário