terça-feira, 19 de julho de 2011

Late night heart ache

São nestas tardias horas que a consciência me deixa, que o coração rompe as cordas que o prendem e ascende ao vácuo deixado pela razão. São nestas horas em que ele é toda a fonte do meu pensar, do meu olhar, do meu gritar e de tudo o que não devia ser liberto para sentir. Enche-me do mais ingénuo horror, da mais bela catástrofe.
Tanto medo...Estou para além do ponto de inflexão da vida, já desço a parábola em direcção às brumas da maré.Que me levem, que me tirem lentamente de mim próprio. Murchei, petrifiquei. Já só me resta balbuciar palavras sem nexo, como as que tão tremulamente escrevo aqui, numa desesperada tentativa de alivar o peso da bigorna que tenho presa à cabeça. Estou tão farto. O que eu guardo não é bom? Não te chega? Desculpa, não funcionou. Se calhar fui eu que não mostrei o que tenho, tens o aspecto de um comum ladrão de esquina, que me assalta de arma na mão e terror no coração e que me leva o que é meu sem pedir, não te ia mostrar o que tenho, rouba-amores. Não te vou contar onde está...
Agora treme, o meu braço. Espasmos a pedir descanso e calor, que o tempo anda frio e cinzento e as camas parecem feitas de agulhas e berbequins. A água da chuva escorre-me pelo nariz abaixo até chegar à ponta, de onde se percepita apenas para encontrar um duro chão de cimento. Mais cinzento, óptimo.
Despeço-me deste poço da agonia, de amores perdidos e bancos abandonados, com o simples desejo de que, ao longo das vossas vidas, meus ilustres camaradas, sejam muitíssimo felizes.

O tempo passa-me, indiferente.

Nota: Este texto foi escrito há muito tempo e decidi finalmente publicá-lo.

domingo, 17 de julho de 2011

A maré revolve, os ventos invertem, a bandeira desce, um grito ecoa, bruto e violento de alívio.
Já mal chuvisca, estão secos os meus cabelos, lavados de todo o terror que brotava de mim. Agora, o Sol aquece, ameno, forte mas sereno e seca-me estes cansados sapatos. Finalmente. Os meus tornozelos já mal se aguentavam em cima de uma sola tão bárbara e inflexível, metade borracha, metade dor. A água lava-me morno, despido de emoções e cheio de vontade de me vestir, partir e ficar. Deixar-me ir, volátil. Deixar-me ir dentro de mim e visitar todos os recantos do mundo, sem nunca sair do meu lugar, ser um todo comigo próprio só por olhar para a janela e te ver lá, alegria.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sting me like a bee

Torna-se díficil. Os sussurros estão mudos ou, talvez, seja eu que estou surdo. Não sei, não importa. A razão quebra-se, esgota-se, cai no poço que abriste em mim. Já não lhe vejo o rosto, está queimado, o corpo, lacerado. A minha razão morreu e quem a matou fui eu.

Pardon.

sexta-feira, 20 de maio de 2011


You've left me here, broken. And here shall I remain until the broom sweeps me over.
...Or until your warm, gentle touch unites me and myself once again...

domingo, 1 de maio de 2011

"As touradas são como assar o touro em vida, tortura-se o animal enquanto o público aplaude a sua mísera morte."

In
Memorial do Convento

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Explosions deep inside

Esqueci-me de ser eu. Estou dormente, um pouco doente talvez. Estou pálido, exilado do Sol. Já nem te vejo, visão enfraquece. Corpo estremece, sofre de frio. Esquece. É redundante, toda esta falta, abundante.
-Este cheiro, é familiar. - sussuras-me docemente - É gás.
-Tens lume? - perguntei, passando-te a mão no rosto.
-Tenho. - olhaste-me, esperançosa - Que nos expluda fora daqui.
-Segura-me, coração.
Combustão. É lindo, o fogo. O tons cintilantes de amarelo, laranja e destruição. É confortável, de certa forma. Arde, arde, arde. Queima-me, acorda-me. Lembrei-me de ser eu, mas o tempo está perdido. Parti o ponteiro, já não marca minutos. Perdi-me nas horas, por causa de segundos.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Puzzle

Abril mágoas mil. Chove lembrança do que não houve, ensopa-me em águas mortas, correntes incoerentes, turbulentas. Partiste-me o vidro, tiraste-me o fusível e lâmpada não serei mais. Lâmpada decente nem fui, talvez. Faltou sempre aquela luminosa, liberta réstea de brilho que se turnou curtamente usual. Agora, molhado, baço, estou sem graça, a deliberar tudo o que causou o causado.
Fui eu? Matei-o com toda esta mórbida apatia que tão comumente se apodera de mim? Ou foste tu que o mataste quando o brilho cessou e te viste a ti? Aqueles fios castanhos ondulantes, aquele olhar denso e penetrante, todo o teu retrato, perfeitamente incomum, incomumente perfeito, dócilmente reflectido nos cacos do vidro por ti estilhaçado. O teu sorriso desfaz-se. O teu olhar embacia-se. O teu calor dispersa-se. Já não há amor que faça luz.

Deixa-me entre brasas ocas, risos ardentes. Fui aceso por sete sublimes dias.