sexta-feira, 6 de abril de 2012

Os meus olhos já nem fecham, com medo de te deixar de ver. O peito aperta e o coração bate ansioso pelo relógio. E eu sinto-me incapaz por não conseguir sequer mostrar-te que o meu porto é seguro, que por aqui as águas são calmas e que vai correr tudo bem. Eu não sei se vai correr tudo bem, nem sei sequer se o mar continua turbulento ou não. Sei que, em tempestade, terás sempre a minha mão. Não sei se isso chega, já não sei nada. Todas as promessas que te possa fazer são fúteis, não é isso que interessa. Eu sei do que precisas, só não deixes que o medo ganhe. Os meus olhos, ainda se inundam, ás vezes, com medo de te deixar de ver.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A água que seguro nas minhas gastas mãos, tão límpida e, nestas ultimas marcas passadas pelos ponteiros, vívida, escorre sem reparo pelas falhas deixadas pela imperfeita união das minhas palmas e dedos. Escapa-me também, misturada na deslumbrante solução incolor, a mais bela do género que eu alguma vez tive o prazer de conhecer, a habilidade de a cativar a ficar por perto, de lhe dar vontade de ficar no desconforto das minhas mágoas e alegrias e de a fazer verdadeiramente satisfeita.
Suponho então que talvez fosse de maior mérito e valor que eu abra as mãos e te deixe cair neste perfeito rio da vida, que tu tanto contemplas com desejo e admiração. O rio representa, com toda a certeza, o fim da tua presente angústia e o início da tua futura desilusão. Mas esta última parte tu não sabes, e tens o direito de a descobrir por ti própria.
Seja como for, peço perdão, pois as minhas mãos não abrem, estão presas pela promessa que me fiz. Parece que prefiro ver-te escorrer a simplesmente deixar-te ir, num triste e instantâneo movimento.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tão partida como perfeita, brilhas no meu quarto como uma estrela cor-de-feno, quarto onde as luzes não acendem, pois as lâmpadas estão fundidas, onde os olhares são surdos e onde infelizmente ninguém lhe sabe devolver iluminação. Sinto-me bem por conseguir finalmente ver as paredes, que coitadas, ainda choram quando me vêem, o tecto, que tão rachado que está que a sua queda adivinha-se para breve e os retratos, tão limpos e sem expressão, que ainda me olham como eu me lembrava.
De certa forma, não é assim tão mau que não queiras ficar cá dentro. Lembrei-me que prefiro não saber que as paredes choram, que os retratos me julgam e que o tecto não tarda em esmagar-me. Lembrei-me que, se ficares, corres o risco de partilhar o meu fado. Mas, um tanto egoísta, preferia que me desses a mão e que a tragédia nos chegasse ao mesmo tempo, que caíssemos juntos e que juntos nos levantássemos, minha estrela cor-de-feno.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Home is my place of staying

Ah, e eis que me volta, tão diferente e soberba, de tão controversas origens, toda esta lírica que me enche os dedos de palavras onde me esconder. Sabe bem estar em casa, escondido de todas as agressões do meio que me é exterior, seguro por saber que aqui trovões não caem, nem árvores, nem eu. Aqui dentro, tudo é perfeito. As mesas têm os cantos protegidos e o chão é alcatifado para não me esfolar. Aqui dentro, tu não falas e eu sou surdo, tu não tens cara e eu sou cego. Nem sei porque fui à rua. Já sabia que ia chover.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Num dia, fiquei de férias, vi um concerto fantástico e pedi-te o que de melhor tens para me dar.
Foi um dia tão bom, tão feliz. Foi um dia perfeito.
Foi o dia em que tu me disseste que o meu lugar é contigo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Late night heart ache

São nestas tardias horas que a consciência me deixa, que o coração rompe as cordas que o prendem e ascende ao vácuo deixado pela razão. São nestas horas em que ele é toda a fonte do meu pensar, do meu olhar, do meu gritar e de tudo o que não devia ser liberto para sentir. Enche-me do mais ingénuo horror, da mais bela catástrofe.
Tanto medo...Estou para além do ponto de inflexão da vida, já desço a parábola em direcção às brumas da maré.Que me levem, que me tirem lentamente de mim próprio. Murchei, petrifiquei. Já só me resta balbuciar palavras sem nexo, como as que tão tremulamente escrevo aqui, numa desesperada tentativa de alivar o peso da bigorna que tenho presa à cabeça. Estou tão farto. O que eu guardo não é bom? Não te chega? Desculpa, não funcionou. Se calhar fui eu que não mostrei o que tenho, tens o aspecto de um comum ladrão de esquina, que me assalta de arma na mão e terror no coração e que me leva o que é meu sem pedir, não te ia mostrar o que tenho, rouba-amores. Não te vou contar onde está...
Agora treme, o meu braço. Espasmos a pedir descanso e calor, que o tempo anda frio e cinzento e as camas parecem feitas de agulhas e berbequins. A água da chuva escorre-me pelo nariz abaixo até chegar à ponta, de onde se percepita apenas para encontrar um duro chão de cimento. Mais cinzento, óptimo.
Despeço-me deste poço da agonia, de amores perdidos e bancos abandonados, com o simples desejo de que, ao longo das vossas vidas, meus ilustres camaradas, sejam muitíssimo felizes.

O tempo passa-me, indiferente.

Nota: Este texto foi escrito há muito tempo e decidi finalmente publicá-lo.

domingo, 17 de julho de 2011

A maré revolve, os ventos invertem, a bandeira desce, um grito ecoa, bruto e violento de alívio.
Já mal chuvisca, estão secos os meus cabelos, lavados de todo o terror que brotava de mim. Agora, o Sol aquece, ameno, forte mas sereno e seca-me estes cansados sapatos. Finalmente. Os meus tornozelos já mal se aguentavam em cima de uma sola tão bárbara e inflexível, metade borracha, metade dor. A água lava-me morno, despido de emoções e cheio de vontade de me vestir, partir e ficar. Deixar-me ir, volátil. Deixar-me ir dentro de mim e visitar todos os recantos do mundo, sem nunca sair do meu lugar, ser um todo comigo próprio só por olhar para a janela e te ver lá, alegria.