quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Voa voa Joaninha, voa voa

Bate constante o "tic" do relógio. Cada um mais ansioso do que o outro.
Paciente, aguardo o que certamente me espera. Mas estou pronto.
Estou pronto para te tirar da palma das minhas cansadas mãos e te deixar voar livremente.
A verdade é que já me serviste mais do que a servidão serviu o mestre.
E quem sou eu para negar tamanho prazer ao sortudo onde vais pousar?
Voa então, mas não voes para longe, para que me possas ouvir quando por ti gritar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estupidez

Sou inconstante,
Constante e bastante,
Não sei ser um,
Nem sei ser nenhum.

Do baço vidro deliro,
Olho e admiro,
Com tanto pensar,
Que não tarda pesar.

Estúpido feliz,
Pois ser estúpido não é o que se diz,
É ter a noção e ignorar,
E ai o estúpido, ninguém pode culpar.

Estupidifiquem-me então!
Tornem duro meu coração,
Vandalizem-me a inteligência,
Pois suga-me a essência.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Páginas Brancas

Peguei o pesado livro, contemplei a capa, como se nela procurasse um espelho do seu conteúdo. Abri e cuidadosamente lí as páginas brancas. Um verdadeiro espectáculo. Todas as letras que podiam ter sido escritas e consequentemente carregadas de intenso sentimento, foram atenciosamente evitadas, de tal modo que não se via uma sequer no livro inteiro!
Á medida que vorazmente folheava e devorava tamanho nada, tudo me surgiu. Tudo o que não está escrito nesta resma invocou em mim, o seu ávido leitor, uma infinidade de sentimentos e pensamentos. Curioso, como esta coisa, que nem título tem, me causou tamanha ansiedade, enorme percepção.
Na verdade, o livro não é escrito. O livro escreve. Todo aquele branco vazio escreveu-me de tal forma que me mudou completamente. Escreveu sobre mim, e escreveu o mais explicito texto de se ler. E depois...
Depois deu-me a caneta.

domingo, 3 de outubro de 2010

Humanity is not inteligent, some Men are.

Nascidos para Animosidade,
Em tenra idade o Instinto comanda,
Partir e quebrar, com falta de bondade
Querer e ter, como quem em tudo manda.

Não somos meros animais,
Bem, alguns não o são,
Enquanto outros são como os demais,
Vivem do impulso e da falta de razão.

Olhei o fundo da rua,
Onde decorria luta fria e crua,
Descontrolo, Raiva, Violência,
Num momento que faltou Educação e Decência.

Escorria o sangue, sorria a Audiência,
Grotescas criaturas, sedentas de Vermelho,
Alimentam-se de Tragédia e de falsa Indulgência,
Selvagens! - Gritou o velho.

O azul e o vermelho surgiram na rua,
Vociferando ameaças, sempre debaixo de Máscaras,
Protectores da paz, distribuindo Violência crua,
Afastei-me, cansei-me daquelas caras.

No outro lado da rua, um rapaz Solitário,
Escondia com um livro, lágrimas de vergonha.
Aproximei-me: - Explica-me o choro precário.
- Onde queres que a ponha?

Trémolo, indicou-me a luta.

Está putrida, a Inteligência,
Substituida por Decadência.
Abandonada a Cultura,
Em prol da Manícura.

Rebanho sem pastor,
Dotado de pura Estupidez,
Seguem-se com fulgor,
Até Morrerem de vez.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Time

Tudo o que passei, tudo o que ri, tudo o que chorei, tudo o que amei, tudo o que odiei, parece em vão quando olho para trás. Porquê que ri e chorei? Porquê que amei e odiei? Junto este par de perguntas ao gargantuano grupo de suas semelhantes, que da boca de todos já sairam pelo menos uma vez. A verdade, é que não podemos procurar explicar o inexplicável. É frustrante. É desconcentrante. É doloroso. E porque temos nós tendência em seguir a pior das ideias? Por muito única que a qualidade do ser humano de pensar e de racicionar seja, e por muito beneficio que lhe traga, temos que admitir que é deveras torturante para quem ousa de facto pensar. Pensar implica muito. Implica demais. Implica dúvida e consciência, enquanto que o frágil ambiente (não, não estou a falar de àrvores e lobos) em que vivemos não permite tal esforço, pois a sua fragilidade é de tal modo acentuada que o mínimo pensamento revela todos os seus defeitos. E é aqui que se põe a grande questão: Ignorar e ser feliz ou vice-versa?
Por tempo demais habitei o inóspito vice-versa. E não recomendo. No entanto, ser um autêntico energúmeno também não é de grande proveito. Para além de se tornar insuportavél para quem não o é. Então o que fazer? A solução é obvia. Concertar as tamanhas fragilidades. Crescer e aprender a viver com as que sobram. E quanto aos sentimentos passados, na sua dada altura, foram intensos, e claro, sentidos. Não vale a pena debater o que está feito e o que foi sentido, pois as razões para tudo o que já se deu, esvaneceram-se nas areias da memória. Por outro lado, não é só o passado que é mexido e remexido. Também o futuro é mexido e pré-mexido. Existe a grave tendência de o predefinir com os nossos sonhos e pesadelos, com os nossos medos e esperanças. A verdade é que o futuro nunca será o que se espera, seja isso bom ou mau. Constroí-se do presente e irá resultar da combinação de todos os factores que o antecedem, e só será o que se fizer dele. No fundo, a verdade, é que a felicidade está no meio da ampulheta.
O que interessa é o momento, vive-o.
Carpe diem

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Mar

Muitos te definem como uma infinidade de perfeição, como algo onde a energia e a tranquilidade ,andam de mãos dadas até o sol se por para dar lugar à paz e à beleza que é o teu rosto sob o luar.
Sim, isso tudo é verdade. Mas não podes de maneira nenhuma ser visto apenas dessa forma.
Temos que conseguir ver para além das ondas que compõem o teu rosto e do reflexo que te dá cor.
Eu consigo ver. Consigo ver o cansaço e a vastidão das tuas lágrimas, que formam tão delicada união com a terra, que as seca pouco a pouco da teu imenso rosto, á medida que elas escorrem.
Compreendo a tua turbulência e a tua cólera, compreendo que são necessárias para te protegeres de certos males. E apesar de tamanha fraqueza nas tuas profundezas, consegues sempre apresentar-te dócil e resistente. E talvez não sejas de facto tão fraco como pensas, pois os fracos vão abaixo. Tu não. Tu vens e vais e vais e vens sempre com a mesma força e intensidade. Aconteça o que acontecer todos sabem que vais estar lá, seja debaixo do quente sol de verão ou da fria lua do inverno.
E a verdade é que ninguém te consegue olhar com os mesmo olhos de outros. E só agora é que entendi o porquê disso. Tu apenas reflectes as pessoas, e de facto, ninguém é igual.

Desculpa se me desviei do que querias.
É todo teu Ana.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pela primeira vez na minha vida, pretendo desfilar nu perante uma vil e sedenta multidão que me aguarda com pás e forquilhas hasteadas. Dispo o meu escudo e enfrento-os pela primeira vez. No entanto, ao primeiro olhar malicioso, levanto de novo o meu conforto e protejo-me. E protejido permaneço, até que a mente me mande de joelhos contra a rocha e me encha de remorso. E de novo largo o meu glorioso escudo de batalha, e de novo me encho de medo.
Eles vão me matar - digo-me com sabedoria - vão me encher de palavras de aço e cortar pelo meu corpo despido. Agarra mas é nesse pedaço de texto e mente. E vive.
E obedeço-me. E imagino um sitio melhor, e como por magia, torno esse sitio real. E vivo nele até acordar e a cena se repetir. E ai, hei de imaginar outro.
Eu quero mesmo deixar de usar escudo, mas tenho medo de morrer.